10.ª edição

10.ª edição

20 de abril 2021, 19h30

Será que nos tornamos mais estúpidos à medida que crescemos?

No seu popular espetáculo da Broadway, “American Utopia”, David Byrne reflete sobre as ligações humanas, a vida e como podemos navegar através dela. Ele une os pontos com a sua música e tudo começa a fazer sentido. Spike Lee transforma a produção numa experiência cinematográfica imersiva e dinâmica que brilha com desempenhos excecionais, dança contemporânea inventiva e urgência política. “American Utopia” flui como uma visão onírica e iridescente. A obra de James Baldwin, Janelle Monáe e Kurt Schitters ganha relevo entre interpretações do trabalho a solo de Byrne e de clássicos dos Talking Heads.

Antifascista e antirracista, Byrne ilumina a nossa responsabilidade de cuidarmos uns dos outros, enquanto ele e os seus cointérpretes pegam fogo à casa.

27 de abril 2021, 19h30

O Brasil foi a última nação ocidental a abolir a escravatura, em 1888.
A segregação social com base na origem e na cor da pele continua até hoje, em parte devido à herança cultural resultante da imigração em massa de europeus, que tiveram acesso a empregos, terras e empréstimos baratos, enquanto a população negra ficou entregue à sua sorte. O cineasta Toni Venturi, brasileiro de raízes italianas, entrevista vários compatriotas seus acerca das suas experiências com o racismo: um médico descreve como foi confundido com um ladrão e uma empregada doméstica conta que foi tratada como escrava pelo patrão. Como se estas histórias não fossem chocantes o suficiente, o relato trágico de uma mulher de São Paulo recorda-nos o fim a que o racismo pode conduzir: o seu filho foi espancado até à morte por polícias, por não ter identificação consigo.

Venturi utiliza um encadeamento poético de entrevistas finamente iluminadas, reflexões filosóficas, imagens de arquivo e interlúdios musicais para construir uma imagem multifacetada do racismo quotidiano profundamente enraizado na sociedade brasileira – incluindo a consideração da posição do realizador.

11 de maio 2021, 19h30

Hossein e Tayi são iranianos. Ele, um progressista secular que estuda radiografia em Genebra, conhece-a durante umas férias escolares em que regressa a Teerão. Ela, muçulmana tradicional e devota, acaba por se casar com uma fotografia dele, que, apaixonado, se vê, no entanto, impedido de se deslocar para a terra natal para cumprir com o casamento de forma presencial. Tayi
acaba por ir viver para a Suíça, ao lado do marido, durante um curto espaço de tempo, mas a vida ocidental e boémia que Hossein pratica vai contra os princípios religiosos da jovem conservadora. Após o nascimento da pequena Firouzeh, decidem regressar para o Irão, onde, lentamente, o tradicionalismo de Tayi acaba por vencer o liberalismo de Hossein.

Firouzeh Khosrovani é, simultaneamente, a filha daquele casal e a realizadora de “Radiograph of a Family”, que se estreou em Amesterdão, no International Documentary Film Festival of Amsterdam (IDFA), arrebatando o galardão de melhor longa-metragem. O seu mais recente filme, profundamente pessoal e biográfico, é, acima de tudo, a história de uma família que se vê transformada pela Revolução Islâmica.

18 de maio 2021, 19h30

O simpático presidente de Ramallah, Musa Hadid, é uma espécie de celebridade na cidade. Vaid Osit, vencedor de um Emmy, segue-o enquanto ele participa em reuniões, recebe o príncipe Guilherme numa visita oficial e faz planos para as celebrações de Natal. Mas Hadid também se preocupa em reparar as portas de uma escola, planeia a instalação de uma fonte no coração da cidade e mostra-se irónico em reuniões cómicas sobre a imagem comercial e o lema da cidade “Nós Ramallah”. O quotidiano da política local contrasta acentuadamente com o campo de minas geopolítico sobre o qual Ramallah está situado.
Osit capta a expressão confusa de Hadid quando ele ouve que a Administração Trump decidiu reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. Numa outra cena, vemo-nos em pleno ataque de gás lacrimogéneo por parte das forças armadas israelitas. Vencedor do Prémio Next Wave no festival de cinema documental CPH: Dox, este filme ilustra a luta das autoridades da cidade com a dura realidade do dia-a-dia. Como se governa uma cidade quando não se tem um país?

25 maio 2021, 19h30

Cerca de dois terços do solo mundial estão a ficar desertificados e o que resta da sua camada superior desaparecerá nos próximos 60 anos. Os pesticidas reformulados para as quintas com base em químicos tóxicos desenvolvidos pelo cientista alemão Fritz Haber – que também desenvolveu os venenos usados nas câmaras de gás do Holocausto – têm vindo a transformar os nossos solos em pó há décadas, causando pobreza e aquecimento global. Contudo, há esperança com a “agricultura regenerativa”, que poderá reequilibrar o nosso clima, reabastecer os nossos vastos recursos hídricos e alimentar o mundo.

Josh Tickell e Rebecca Tickell examinam a história reveladora do solo narrado por Woody Harrelson, três vezes nomeado ao Óscar da Academia e ativista ambiental. Incluindo o contexto histórico da “Bacia do Pó”, o maior desastre ambiental causado pelo Homem, o filme acompanha conservacionistas como Ray Archuleta, que ensina a agricultura regenerativa a agricultores, e a ministra francesa da Agricultura, Stéphane Le Foll, que introduziu a Iniciativa “4 por 100”, que foi assinada por 30 países, à exceção dos EUA, da China e da Índia.

“Beijar a Terra” leva-nos numa viagem pelo globo, mostrando um movimento mundial que visa regenerar o solo da Terra.

8 junho 2021, 19h30

Bostofrio é uma pequena aldeia do concelho de Boticas. Não, não iremos falar acerca da exploração de lítio, da ganância das corporações, nem da ambição desmedida dos políticos ou da revolta das populações. Nem tão pouco vimos tecer elogios à posta mirandesa ou ao vinho transmontano. Há outros motivos para lembrar os que estão para lá do Marão.
“Bostofrio” é também o título do filme que Paulo Carneiro realizou e que percorreu diversas salas do país e do estrangeiro. Uma estreia comercial que o autor pensou nunca vir a ser possível, quer pela dimensão pessoal do projeto e a abordagem artística, quer pelos constrangimentos orçamentais. O percurso de “Bostofrio” pelo circuito de festivais, onde se apresentou como documentário e foi enormemente recebido, veio apaziguar os receios do realizador e provar que, também fora do ecrã, há histórias com final feliz, especialmente para os espectadores, que têm oportunidade de assistir a este filme.

Diz a sinopse curta que “numa aldeia remota chamada Bostofrio, um jovem cineasta quebra a lei do silêncio para descobrir a história do seu avô, através de uma série de entrevistas estranhas e engraçadas que revelam os segredos e meias verdades que são o tecido de um Portugal rural”.

22 junho 2021, 19h30

Esta história começa por um anúncio de jornal.
“Procura-se homem idoso. Reformado entre os 80 e 90 anos. Autónomo, saudável, discreto e competente na utilização de tecnologia. Para realizar investigação; com disponibilidade para viver fora de sua casa durante três meses.”
Sergio é um dos vários homens que respondem ao anúncio. Octogenário, bem parecido, procura acima de tudo algo que lhe ocupe o tempo e que lhe permita alhear-se, ainda que fugazmente, da pesada saudade da esposa, falecida há uns dolorosamente curtos quatro meses.
Rómulo é o experiente detetive privado responsável pela publicação do anúncio. Procura um “agente infiltrado”, que consiga introduzir no lar de São Francisco e, assim, obter informações privilegiadas que respondam à suspeita de maus tratos levantada por uma cliente, cuja mãe reside nesse mesmo lar. É em toada de film noir que prosseguimos, portanto.

À medida que Sergio prossegue periclitantemente na sua missão, o filme assume uma dimensão humana e pessoal que não terá escapado à realizadora e que se torna (magnificamente) no seu objeto central.