8.ª edição
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8.ª edição

02 ABRIL 2019

de Daniel Rosenfeld

Piazzolla, los Años del Tiburón | 92’ | Argentina, França | 2018 | m/12

O compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla (1921-1992) revolucionou o tango. O seu tango nuevo, uma abordagem revolucionária, com influências de jazz e de música clássica, tornaram-no uma figura controversa no seu próprio país, pelo choque com a tradição musical.
O primeiro bandoneon de Astor foi-lhe oferecido pelo pai, quando tinha 9 anos. Vinte anos mais tarde, tinha atingido o limite do tango. Em busca do seu próprio estilo, estudou piano e composição em Paris, no início dos anos 1950. Aí, apercebeu-se de que, apesar de tudo, era ainda um tanguero. Seguir-se-ia uma carreira multifacetada, maioritariamente na Europa e nos Estados Unidos da América.
Para o documentário Os Anos do Tubarão, Daniel, filho de Astor, abriu as portas à sua coleção privada. Imagens exclusivas de inúmeros espetáculos e filmagens familiares íntimas que, combinadas com material de arquivo, pintam um retrato intenso de Piazzola: seguro de si, obstinado, apaixonado e um verdadeiro virtuoso. Os comentários de Daniel revelam um relacionamento complicado com o pai, enquanto as horas de gravações áudio entre Piazzolla e a sua filha, Diana, fornecem uma perspetiva rara da mente de um génio musical.

16 ABRIL 2019

de Michael Moore

Fahrenheit 11/9 | 128’ | EUA | 2018 | m/12

Com argumento e realização do polémico documentarista norte-americano Michael Moore – autor de Bowling For Columbine (que lhe valeu um Óscar em 2003), Fahrenheit 9/11, Sicko, Capitalismo: Uma História de Amor ou E Agora Invadimos o Quê? – este filme é uma reflexão sobre a inesperada eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Moore tenta responder ao porquê de os Norte-americanos se terem colocado nesta situação, sugerindo o que poderá ser feito para a mudar.
Estreado no Festival de Cinema de Toronto, 14 anos depois da estreia de outro documentário de Moore, Fahrenheit 9/11 (que aludia ao 11 de Setembro de 2001), o realizador faz uma referência clara e provocadora à data em que, no ano de 2016, Trump se tornou Presidente dos EUA.

30 ABRIL 2019

de Talal Derki

Kinder des Kalifats | 98’ | Alemanha, Síria, Líbano | 2017 | m/16

Para evitar o regresso dos pesadelos há que, primeiro, capturá-los em papel. É a lição que o realizador sírio Talal Derki aprendeu com o seu pai. Depois do premiado documentário, Return To Homs, Derki regressou à sua terra natal, onde ganhou a confiança de Abu Osama, um radical islâmico e combatente da Frente Al-Nusra. Durante mais de dois anos, numa pequena aldeia no norte da Síria, partilhou a vida quotidiana com a família de Osama. Focado principalmente nas crianças, o documentário fornece uma visão extremamente rara sobre o que significa crescer com um pai cujo único sonho é a criação do califado islâmico. Desde tenra idade, os rapazes são treinados para seguir os passos do pai e tornarem-se soldados de Deus. O horror da guerra e a intimidade da vida familiar nunca estão longe um do outro. Talal Derki propõe-se a capturar o momento em que as crianças têm de abandonar a juventude e são transformadas em combatentes jiadistas. Independentemente da proximidade da guerra, há uma coisa que eles já aprenderam: nunca devem chorar.

14 MAIO 2019

de James Longley

Angels Are Made of Light | 117’ | EUA, Dinamarca, Noruega | 2018 | m/12

“Se continuar a trabalhar, vou fracassar na escola. Se continuar a estudar, vou perder o meu emprego”. O filho de um mecânico de automóveis revela as incertezas com as quais se debate. Mas Rostam Sohrab, o mais velho de três irmãos que estudam na escola Daqiqi Balkhi, em Cabul, não é um caso único. No Afeganistão contemporâneo, todos lutam para entender como será o futuro – algo compreensível num país devastado pela guerra há décadas.
James Longley, cineasta nomeado aos Óscares, filmou este documentário durante vários anos e encontrou uma forma eficaz de explorar as divisões na sociedade e as preocupações coletivas. Escutamos os pensamentos de novos e velhos, homens e mulheres, enquanto a câmara percorre bairros arruinados e salas de aula frias. Existe, no entanto, esperança nesta mensagem, e um sentimento de otimismo que a atravessa.
Com base em lembranças e ambições pessoais, Os Anjos São Feitos de Luz mostra de onde o Afeganistão veio, onde se encontra hoje e para onde precisa ir. No meio da devastação e do medo, a educação e a religião são uma fonte de estabilidade, e os jovens, em particular, parecem ter a coragem de imaginar um novo futuro para si mesmos.

28 MAIO 2019

de Raúl de La Fuente e Damian Nenow

Another Day of Life | 85’ | Polónia, Espanha, Alemanha, Bélgica | 2018 | m/12

“Mais Um Dia de Vida”, adaptação do romance homónimo de Ryszard Kapuściński, é o empolgante relato dos três meses de viagem do repórter polaco através de uma Angola devastada pela guerra em que as linhas da frente se alteram de dia para dia, como num caleidoscópio.
Tal como na obra literária que lhe deu origem, o filme começa com a chegada de Kapuściński a Luanda, em 1975. O país está imerso no processo de descolonização, após o sucesso da Revolução dos Cravos, com os portugueses a fugirem apressadamente das zonas de maior encanto da cidade, apavorados com a possibilidade de um ataque total à capital. As lojas estão a fechar, o lixo amontoa-se nas ruas, enquanto as autoridades desaparecem gradualmente. Kapuściński acompanha a desertificação de Luanda, enviando comunicações diárias para a Agência de Imprensa Polaca.
Nos meses que antecederam a declaração de independência, diferentes fações do movimento de libertação angolano envolveram-se numa luta aguerrida, sabendo que quem vencesse deteria o poder na futura república independente. Após alguma reflexão, Kapuściński decide viajar para as linhas da frente, sabendo estar a arriscar a vida para ser o primeiro jornalista do mundo a divulgar relatórios diários sobre o curso do conflito. Viajar através da zona de conflito assemelha-se a um jogo de roleta russa: uma simples saudação errada num posto de controlo pode significar a morte.
A Guerra Civil Angolana deixa rapidamente de ser apenas mais uma guerra que Kapuściński cobre como repórter. Surge um conflito interno dentro do escritor, que é incapaz de e não está disposto a ser simplesmente um observador passivo e objetivo dos eventos que o rodeiam. Sente compaixão e simpatia e tem um enorme respeito pelas pessoas cujas histórias quer contar ao mundo. A situação leva-o a questionar o papel do repórter de guerra, a questionar os limites da imparcialidade jornalística e o envolvimento no conflito. Para contar a verdadeira história de Angola, Kapuściński passa por uma mudança profunda como ser humano e renasce – como escritor.

11 JUNHO 2019

de Bing Liu

Minding The Gap | 98’ | EUA | 2018 | m/16

Com recurso à compilação de mais de 12 anos de filmagens na sua cidade natal de Rockford, Illinois, Bing Liu procura correlações entre a educação turbulenta dos seus amigos skaters e as complexidades da masculinidade dos tempos modernos. Com o avançar do filme, Bing capta a deterioração da relação tempestuosa de Zack com a sua namorada após o nascimento do seu filho e a luta de Keire com a sua identidade racial, que enfrenta novas responsabilidades após a morte do seu pai. Apesar de navegar numa relação difícil entre a sua câmara, os seus amigos e o seu próprio passado, Bing elabora uma história de perdão geracional enquanto explora o espaço que separa a infância e a idade adulta.

18 JUNHO 2019

de Erick Stoll e Chase Whiteside

América| 76’ | EUA | 2018 | m/12

Três irmãos confrontam o abismo que separa os anseios da adolescência e as responsabilidades da vida adulta, quando são reunidos para cuidar da sua carismática avó de 93 anos de idade.
Diego é um jovem artista de circo que vive longe da família, numa paisagem insípida de estâncias e praias turísticas, e se vê obrigado a regressar subitamente. A sua avó, América, caiu da cama, levando o pai à prisão, sob acusações de negligência.
Diego vê poesia e propósito nesta tragédia. Ele acredita que América, apesar da sua imobilidade e demência, caiu propositadamente para reunir a família separada.
Mas, agora, os irmãos têm de enfrentar os grandes desafios de libertar o pai de um sistema judicial opaco e despojado de autoridade moral, e aprender a cuidar de alguém que poderá não compreender quem eles são.
Porém, o maior desafio poderá ser aprender a trabalhar em conjunto. Com o surgimento de confrontos devido a dinheiro e distribuição de tarefas, levantam-se questões difíceis: quem decide o futuro de América? E por quanto tempo irão eles suspender as suas vidas para cuidar dela?