Comboios

21h30 | 30 de junho

de Maciej Drygas
Trains (Pociągi) | 81 min. | Polónia, Lituânia | 2024 | m/12

Vencedor Melhor Documentário

Vencedor Melhor Montagem

Seleção Oficial

Seleção Oficial

“Há esperança infindável. Uma infinidade de esperança. Mas não para nós.”

Estas palavras de Franz Kafka, escritas num mundo que ainda não conhecia o pior do século XX, abrem o mais recente trabalho do mestre polaco do documentário de arquivo, Maciej Drygas. Como uma nuvem escura que se adensa sobre a paisagem, a epígrafe anuncia o que está para vir: um mosaico visual composto exclusivamente por imagens recolhidas em 46 arquivos de todo o mundo, um monumento cinematográfico à dualidade do engenho humano.

Comboios atravessa o século XX ao sabor dos carris, desde a euforia da construção das locomotivas, o glamour das viagens de comboio, a elegância dos vagões-restaurante, passageiros em traje de festa que embarcam com a esperança de que algo mude ao chegar ao destino. Há uma beleza quase inocente nestas imagens, uma fé no progresso que o cinema soube captar desde os seus primeiros anos.

Mas o mesmo engenho que transporta sonhos depressa se transforma em máquina de horror. As estações enchem-se de soldados que partem para a frente e regressam mutilados, transportados nos mesmos vagões que os levaram. Os prisioneiros desfilam esfarrapados, as deportações sucedem-se num ciclo que parece não ter fim. Os comboios que levavam famílias em viagem de lazer começam a transportar corpos. A euforia dá lugar ao silêncio.

Drygas não acrescenta palavras. Não há narração, não há entrevistas, não há testemunhos. Há apenas imagens — um arquivo emocional do século XX — e uma paisagem sonora esculpida com precisão cirúrgica por Saulius Urbanavicius, onde o chiar dos carris, o apito das locomotivas e o silêncio absoluto se entrelaçam numa partitura de raro impacto. A montagem de Rafał Listopad, premiada no IDFA, cose estas imagens como quem cose feridas: com delicadeza, mas sem nunca desviar o olhar. Trata-se de um labirinto de possibilidades, de caminhos que se cruzam e se separam, uma encruzilhada permanente entre a beleza e a barbárie, entre o génio humano e a sua perversão mais obscura.

Vencedor do Grande Prémio do IDFA 2024 para Melhor Filme e Melhor Montagem, e presente nos mais conceituados festivais internacionais, como é que Comboios responde a Kafka quando ele nos diz que há esperança infindável, mas não para nós? Talvez assim: reconstruindo, frame a frame, a memória do que fomos — para que não voltemos a ser.

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