2 maio 2017

O ÊXTASE DE WILKO JOHNSON

de Julien Temple

The Ecstasy Of Wilko Johnson | 92’ | Reino Unido | 2015 | m/12

O guitarrista dos míticos Dr. Feelgood, Wilko Johnson, recebe inesperadamente um diagnóstico de cancro do pâncreas incurável, restando-lhe apenas alguns meses de vida.

As reflexões em torno da sua morte iminente, levam-no a meditar sobre o poder transformador da mortalidade.

Grava um álbum com Roger Daltrey em apenas oito dias e embarca numa série de concertos de despedida.

Uma inspiradora e positiva abordagem ao fim da vida com uma notável mestria na manipulação de imagens de arquivo e música.

…e com um final inesperado.

 
 
“O Êxtase de Wilko Johnson” não é “mais um documentário” sobre um músico de rock. VAi além disso. Bastante além disso. Não pretende analisar a “carreira” de um conhecido e excêntrico guitarrista, nem tão pouco gabar os seus dotes de virtuoso.

O ponto de partida de “O Êxtase de WIlko Johnson” é outro: Wilko Johnson, o homem — famoso (também) por ter integrado a mítica banda Dr. Feelgood, nos idos anos 70, ali à beira da explosão do punk — vê ser-lhe diagnosticado um cancro pancreático.

O choque de uma revelação deste género e a baixa probabilidade de sobrevivência (uma sentença de morte, a prazo) têm efeitos diversos no estado anímico e na saúde psicológica de quem se vê confrontado com tal situação. No caso de Wilko, que vira a sua mulher morrer no seguimento de uma luta contra o cancro, anos antes,  opta por renunciar a qualquer tratamento e abraçar o “êxtase” da vida.

E não se pense, quem estereotipa acerca de um qualquer preconceito de rock ‘n roll lifestyle, que o percurso escolhido por Wilko passa a ser de autodestruição ou de excessos. Pelo contrário, passa a ser de procura de paz e conclusão de projetos eternamente adiados, como a edição de um álbum (“Going Back Home”) com Roger Daltrey (dos The Who). Ao enfrentar a câmara e expôr o resultado das suas meditações e reflexões sobre a vida e a morte, sobre a mortalidade humana e o nosso papel no mundo, a postura não é a de um guitarrista de rock, mas a de um homem que, além de músico, foi professor de inglês e literatura e que, com a mesma facilidade com que fala da loucura da vida em digressão, cita Byron e Shakespeare ou aborda a sua paixão pela astronomia e a pintura.

O resultado é um documentário belíssimo que, além da dimensão humana, poética e artística que o tema e o protagonista propiciam, apresenta ainda uma estética muito própria, com um recurso elaborado a imagens de arquivo que levaram a que fosse reconhecido com o prémio especial do júri para melhor design no festival SXSW e um prémio da FOCAL para melhor utilização de imagens de arquivo num documentário.

Continuamos a nossa programação com mais um documentário de grande qualidade e outra forte aposta do hádoc 2017. Aconselhamos a que NÃO PERCAM! Para vosso próprio deleite!