6 junho 2017

DIA DA LIBERTAÇÃO

de Uģis Olte e Morten Traavik

Liberation Day | 100’ | Noruega , Letónia | 2016 | m/12

Em agosto de 2015, a banda de culto que se autodefine como “engenheiros de almas humanas”, LAIBACH, tornou-se o primeiro grupo de rock estrangeiro a apresentar-se na secretista Coreia do Norte.

A ocasião (ou pretexto) foi o 70.º aniversário do Dia da Libertação, que marca o final do domínio colonial japonês em 1945.

Uma equipa de cinema letã e norueguesa obtém acesso inédito para acompanhar a controversa banda e o processo de organização do concerto histórico, no interior daquele que é frequentemente rotulado como o país mais isolado do mundo.


Toda a arte é propaganda.George Orwell
…e toda a propaganda é arte.Laibach
 
 
A Coreia do Norte é, ao dia de hoje, provavelmente o país do mundo mais envolto em secretismo e mistério. Na era da internet, em que assumimos viver na “aldeia global”, é frequente opinar-se mesmo sobre o que não se conhece, porque se tem a sensação que “já se conhece”, tal o fluxo de informação com que somos bombardeados diariamente. É talvez por isso que os outros tipos de bombas nos assustam tanto. Nomeadamente as que a Coreia do Norte vai detonando em ensaios nucleares. A República Popular Democrática da Coreia (sim, no nome oficial da Coreia do Norte consta democrático) continua a ser um local associado a polémica e ocultação, mas também repleto de mito e refém do imaginário do mundo ocidental. Não estaremos, tantos anos depois, muito distantes do que Magalhães ou Marco Polo antecipavam das suas viagens.

Morten Traavik, um dos realizadores deste documentário que o hádoc se orgulha de apresentar, preparou o evento que deu origem ao “Dia da Libertação” (a viagem da banda eslovena Laibach à Coreia do Norte) durante alguns anos, com mais de 20 viagens àquele território e diversas colaborações com as entidades norte-coreanas. Apenas desta forma, e nas suas próprias palavras, seria possível “estabelecer uma relação pessoal com as pessoas com que se trabalha, uma relação de confiança”. Porque “para haver confiança é preciso tratar as pessoas como iguais, não como inferiores ou superiores”. Estes alicerces, que foi cimentando, permitiram-lhe encaminhar todo o processo de forma a que o resultado tenha sido que “os Laibach foram convidados porque eu pedi aos norte-coreanos para os convidarem”.

A escolha dos Laibach como elemento de aproximação ao ocidente, afinal, porque é disso que se trata, e, por consequência, aos próprios irmãos coreanos, a sul da fronteira, foi tudo menos inocente. Surgidos na ex-Jugoslávia, em 1980, os Laibach são na realidade a “ala musical” de um coletivo de artistas que cultivam uma aguerrida afirmação de consciência social e política. E fazem-no pelo choque, assumidamente. Uma estética militarizada e autocrática, por vezes apontada como demasiado próxima da imagética nazi. Desde sempre provocadores e instigadores de reações acesas, mas também detentores de uma invejável bagagem cultural (não só musical) e um sentido de humor muito próprio, revelado pelas escolhas das versões que ainda hoje tocam ao vivo: Live is Life, dos Opus ou One Vision, dos Queen.

Não é, assim, tão surpreendente que nesta viagem a um dos países mais isolados do mundo, os Laibach tenham levado preparadas uma série de versões de temas de um dos filmes musicais mais vistos de sempre: “Música no Coração”. Curiosamente (ou não) um dos poucos ícones da cultura ocidental que os norte-coreanos conhecem e reconhecem.

Entenda-se, portanto, a relevância do documento que este filme representa, mais do propriamente o resultado do documentário que acompanha “a primeira banda rock a atuar na Coreia do Norte” como foi apregoado na comunicação social, na altura do acontecimento.