América

 
 
 
 
 
18 junho 2019

AMÉRICA

de Erick Stoll e Chase Whiteside

América| 76’ | EUA | 2018 | m/12

A dimensão da vida humana é algo de paradoxal. Num espaço de tempo relativamente curto em termos biológicos (especialmente se comparado com as dimensões geológicas ou históricas), a experiência de vida humana permite-se, na sua diversidade, ser uma fonte prolífica de análises, ensaios, introspeções e estudos. Dir-se-iam virtualmente inesgotáveis as abordagens possíveis às múltiplas facetas e particularidades de cada um dos seus aspetos e períodos. A “compaixão”, a “sensibilidade”, a “empatia”, o “amor”, são conceitos transversais às divisões culturais e sociais da organização humana (tal como outros conceitos menos positivos), e, talvez por isso, é ainda possível sermos surpreendidos com a forma como alguns artistas traduzem a curta passagem dos seres humanos pelo mundo.

Vem isto a propósito do filme que o hádoc, em ESTREIA NACIONAL, propõe para a sessão de encerramento da sua oitava edição: América, de Erick Stoll e Chase Whiteside. De uma enorme beleza e extrema sensibilidade, mas também de um competência técnica acima da média, é, essencialmente, um trabalho de uma universalidade impressionante, e será, sem dúvida, um filme que permanecerá na memória e no coração do público.

América é uma idosa de 93 anos que, após um acidente doméstico, se vê necessitada de cuidados permanentes. Além das suas limitações físicas e dos sinais incipientes de demência, a situação agrava-se quando o filho, principal cuidador, é atirado para a prisão, acusado de negligência. Diego, Rodrigo e Bruno, os três netos de América, veem-se forçados a colocar em pausa as suas vidas para, juntos, tomarem conta da avó. Mas o que, ao início, se afigura como uma situação temporária, rapidamente evolui para uma questão difícil de gerir, com as complicações inerentes à dificuldade em libertar o pai do sistema judicial, e as querelas cada vez mais acesas relativamente à forma de cuidar de América e à origem do dinheiro para o fazer. Os três jovens são, assim, confrontados com uma dura passagem à idade adulta, com uma janela privilegiada, mas nada animadora, para a velhice e o final de vida.

Há filmes que, inexplicavelmente, passam ao lado dos grandes prémios nos festivais de cinema, acabando por ficar abaixo do radar do mainstream da indústria cinematográfica. O hádoc, contudo, orgulha-se de selecionar os seus filmes por outra bitola que não a quantidade ou sonoridade dos galardões arrecadados. É raro encontrar um filme assim, em que a complexidade do tema, a delicadeza do trabalho de realização e a personalidade dos protagonistas se funde de forma tão perfeita, que o processo de contar uma história (que são muitas) praticamente nos faz esquecer que assistimos a um filme documental.

A ironia, fortuita, subjacente ao título do filme. não deixa de ser curiosa. A velha e frágil América, mulher com nome de continente, está dependente dos cuidados de três jovens mexicanos, eles próprios a braços com a incerteza do seu futuro, envolvendo-se em pelejas que não desejam e limitados por um sistema judicial corrupto e opaco.

 
 
 

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