Minding The Gap

 
 
 
 
 
11 junho 2019

MINDING THE GAP

de Bing Liu

Minding The Gap | 98’ | EUA | 2018 | m/16

Esta é a história de três jovens, da sua camaradagem, e da paixão pelo skate. Esta é, também, a história de uma cidade no nordeste dos Estados Unidos, que, durante várias décadas fez parte da  mais antiga e extensa área industrializada do país. Aí se instalaram diversas indústrias, da petroquímica, à mecânica, mas sobretudo a siderúrgica e metalúrgica. Foi uma época de crescimento e prosperidade, que entrou em declínio nas décadas de 1970 e 1980. Devido ao abandono das infraestruturas então existentes a região passou a ser, ironicamente,  conhecida por Cinturão de Ferrugem (Rust Belt). As consequências económicas e sociais foram avassaladoras.

É este o contexto em que encontramos Zack, Keire e Bing Liu (o realizador de Minding The Gap), na cidade de Rockford, Illinois. Rapidamente se entende que, em comum, além  do skate, têm também um enquadramento social e familiar semelhantes, reflexo do meio conturbado em que cresceram.

Em 1996, a revista Money elegeu Rockford como “a pior cidade nos Estados Unidos”,  com base em critérios como a falta de emprego e fraca assistência médica. A população viu-se forçada a enfrentar sérias contrariedades e as crianças e jovens cresceram com o peso das dificuldades da família, tendo também eles de lutar contra as circunstâncias, defendendo-se (física e psicologicamente) usando todos os recursos possíveis.

É como mecanismo de defesa, no processo de procurar algum conforto e sentido de família, que o skate e a rua surgem naturalmente para Zack, Keire e Bing Liu,  os três protagonistas, e funcionam como elo de união entre eles. Em comum, carregam o fardo de um passado marcado por violência doméstica, abusos físicos e psicológicos, mas, acima de tudo, a vontade de contrariar um ciclo que se prevê vicioso.

Com uma sensibilidade extrema, Bing Liu acompanha os percursos de Zack e Keire, enquanto lidam com os desafios do início da idade adulta, transversais a qualquer época ou meio social: a busca de emprego, as relações amorosas e a parentalidade. Estas batalhas ganham uma outra dimensão quando condicionados pelo peso do ambiente familiar tóxico em que cresceram, sendo igualmente dolorosa e corajosa a forma como partilham com a câmara a sua intimidade e a luta diária por uma vida melhor. Ou pelo menos diferente da dos adultos que conhecem.

O realizador mergulha, ainda, na sua própria história, revelando um passado assombrado por um padrasto alcoólico e violento e, num dos momentos mais marcantes do documentário, confronta a própria mãe, como se de uma sessão de terapia se tratasse.

Apesar da sombra permanente do passado, Minding the Gap mostra-nos  beleza nos momentos de evasão pelas ruas da cidade – que apesar de decadente, aparece atraente, graças aos planos captados pela câmara de Bing Liu – e, em especial, a catarse na partilha dos traumas, medos e desejos de cada um dos protagonistas. É inevitável sentirmos  empatia por cada um deles e querer continuar a seguir os seus percursos, as suas histórias, após o final do filme. E alimentar a nossa e a sua esperança de que, de alguma forma, encontrem um caminho capaz de amenizar as consequências de uma infância e adolescência marcadas pela violência.

 
 
 

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