Os Anjos São Feitos de Luz

 
 
 
 
 
14 maio 2019

OS ANJOS SÃO FEITOS DE LUZ

de James Longley

Angels Are Made of Light | 117’ | EUA, Dinamarca, Noruega | 2018 | m/12

Os Anjos São Feitos de Luz é um filme sobre o Afeganistão. Sobre os Afegãos. Posto desta forma simplista, é difícil que as imagens mentais que nos ocorrem sejam outras que não as de um país destruído pela guerra, em permanente conflito e assolado pelo horror e pela violência. Desde a revolução marxista, em 1978, e consequente invasão soviética, em 1979, que a história recente do Afeganistão é, de facto, uma sucessão de altercações e disputas, com interesses internacionais a alimentarem a desordem e fomentarem a luta armada. Poucos discutirão o epíteto de país mais inseguro do mundo recorrentemente associado àquele território. Os Anjos São Feitos de Luz procura, em certa medida, desconstruir essa ideia.

James Longley, cineasta e fotógrafo, propõe uma visão poética da vida quotidiana em Cabul, através de uma perspetiva que permite facilmente criar empatia e percecionar a sociedade afegã fora do contexto frequentemente veiculado pelos meios de informação: uma pequena escola de bairro. Este projeto de Longley, que tem na sua génese precisamente este propósito – mostrar o lado mais humano e familiar de uma população usualmente entendida, pelo exterior, de uma forma estereotipada – sofreu várias alterações na sua conceção, tendo tido algumas versões experimentais, entretanto abortadas, no Irão e no Paquistão. No seu entender, a escola, os alunos e os professores são uma janela privilegiada para a vida quotidiana e para entender a dinâmica entre adultos e crianças, com a vantagem de reduzir o desconforto causado aos protagonistas por ter uma câmara a entrar nas suas casas. A escola apresenta-se, de alguma forma, como um terreno neutro.

A Escola Daqiqi Balki, bem no centro de Cabul, e em particular as histórias de Sohrab, Rostam e Yaldash, três irmãos cuja mãe, Fazula, é professora na escola, servem de ponto de partida para esta exploração da difícil vivência e sobrevivência do afegão comum. Nik Mohammed, professor de Dari, Moqades, professor de religião, e Rogul, a auxiliar da escola, são alguns dos protagonistas que contribuem também com os seus comentários, experiências e memórias para esta tela que James Longley pinta com mestria. Uma fotografia irrepreensível (Longley, que foi amplamente premiado pelo seu documentário Iraq in Fragments, é exímio nas opções cinematográficas tomadas para contar esta narrativa) e uma abordagem particular no momento de fazer escutar as vozes dos intervenientes (cujos relatos são, maioritariamente, em off), transmitem uma sensação de intimidade e ligação empática com os protagonistas e com o objeto do documentário. A utilização de imagens de arquivo, apenas na medida do necessário e como veículo para contextualizar a ação, contribuem para tornar este filme numa das mais belas e bem-conseguidas obras desta edição do hádoc.

Apesar da omnipresença do fantasma da guerra e da dura realidade que é a do Afeganistão atual – um país em reconstrução e a braços com sérias dificuldades económicas, repleto de divisões étnicas e sociais – a mensagem de Os Anjos São Feitos de Luz é, claramente, de esperança e reconciliação. O filme de James Longley encontra na escola e nestas crianças, a metáfora perfeita para a aprendizagem, o crescimento e a fé num futuro melhor, ainda que num país devastado pelo conflito e em equilíbrio precário.

 
 
 

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