Fahrenheit 11/9

 
 
 
 
 
16 abril 2019

FAHRENHEIT 11/9

de Michael Moore

Fahrenheit 11/9 | 128’ | EUA | 2018 | m/12

Michael Moore está acostumado a polémicas. Dir-se-ia, até, que descortina oportunidades a cada nova polémica que surge. Ou, arriscaríamos dizer, que se regozija com as polémicas que ele próprio provoca.

Polémico, contestatário, interventivo, provocatório, intrépido, contundente ou, como uma boa parte dos seus concidadãos poria: tendencioso, oportunista, “esquerdalho”, falacioso, mentiroso, sedicioso.

A receção do público e da crítica a cada novo documentário de Michael Moore recupera esta dualidade de atitudes e emoções. Porque, na realidade, e para quem conhece o trabalho de Moore é fácil compreender que a linguagem cinematográfica e postura face ao poder instituído se mantêm de filme para filme. Porque os documentários de Moore são políticos e pessoais. Talvez por isso ele surja neles como “ator” e narrador, dando cara e voz ao tema que aborda e conduz, recorrendo ao humor (mordaz e negro) para captar a atenção do espectador, mesmo quando parece fugir do tema inicial a que propôs.

A forma como Moore constrói um documentário está mais próxima do artigo jornalístico que da conceção “clássica” do documentarista que procura a isenção e distanciamento emocional do objeto focado. Michael Moore não quer saber disso para nada! Aliás, faz questão de intervir e provocar os entrevistados, criar situações embaraçosas, envolver-se pessoalmente no terreno e expor claramente a sua posição e opinião.

Em Fahrenheit 11/9 (que vai buscar o título ao dia em que Donald Trump venceu, oficialmente, as eleições presidenciais norte-americanas – 9 de novembro de 2016) Michael Moore explora o contexto social, económico e político que permitiram a eleição democrática de Trump. Alguém que vem de fora do sistema e que, graças a uma colossal ambição, assume publicamente a sua falta de escrúpulos, toma o poder e molda um país às suas visões preconceituosas e egoístas. Soa familiar? Num momento particularmente perturbador (e divertido) de Fahrenheit 11/9, Michael Moore compara a ascensão ao poder de Hitler com os recentes acontecimentos da história dos EUA.

Mas este filme não se fica pelo retrato da eleição de Trump e como a América permitiu que tal sucedesse. Procura uma explicação para os eventos e é sem grande dificuldade que consegue relacionar a promiscuidade entre o poder político e o capital corporativo (a exploração dos recursos naturais e o armamento são dois temas que Moore recupera com mórbido prazer) e a desilusão dos Norte-americanos com o processo político e com a falsa representatividade democrática. Estas são, claro, as ideias do autor, mas também as de uma série de indivíduos, movimentos cívicos e organizações comunitárias que procuram lutar contra o estabelecido e mudar o estado da nação. Moore dá-lhes atenção, voz e tempo de antena, ainda que num registo, por vezes, panfletário.

Porquê um filme sobre os EUA e qual a relevância desta temática para a programação do HÁDOC? Se Fahrenheit 11/9 é um filme sobre a atualidade norte-americana, as questões abordadas são tudo menos exclusivas dos Americanos. Apesar das idiossincrasias daquele que, até ao dia de hoje, gosta de se considerar o país mais poderoso do mundo, os perigos, ameaças e, em última instância, os desafios e oportunidades que se colocam aos Norte-americanos são em tudo semelhantes ao que o ocidente capitalista e o mundo, na generalidade, enfrentam em 2019. A crise económica tem efeitos globais, o crescimento de movimentos autocráticos, particularmente de direita, é generalizado e o empobrecimento de uma fatia significativa da população e alargamento do fosso de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres é comum a todos os cantos do globo. Há que aprender com a História e com os exemplos recentes e tirar ilações adequadas às especificidades de cada realidade local.

 
 
 
 

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