Piazzolla – Os Anos do Tubarão

 
 
 
 
 
2 abril 2019

PIAZZOLLA – OS ANOS DO TUBARÃO

de Daniel Rosenfeld

Piazzolla, los Años del Tiburón | 92’ | Argentina, França | 2018 | m/12

“Estás dando um passo atrás.” Estas cinco palavras bastaram para encetar um conflito entre Daniel Piazzola e o seu pai, Astor, que os afastaria durante mais de dez anos. Daniel era membro do Conjunto Electronico, tocando sintetizador no octeto que deu corpo a composições de Piazzolla, entre 1973 e 1977, em que o autor argentino explorava territórios próximos do jazz e do rock progressivo. Ao invés do retrocesso que Daniel preconiza, quando Astor Piazzolla, aos 57 anos, decide regressar ao Tango Nuevo e ao formato de quinteto, bem como tornar a abraçar a paixão pela música sinfónica e de câmara, na realidade abre portas para a sua consagração definitiva, com o período de maior popularidade na carreira e concertos por todo o mundo, numa diversidade enorme de formatos e formações. A obstinação, expressa de forma clara e contundente neste episódio, é seguramente uma das idiossincrasias de Piazzolla mais comummente apontadas nas inúmeras notas biográficas do argentino.

O percurso de Astor terá tido início em Nova Iorque – para onde a família Piazzolla havia emigrado em 1925, deixando Buenos Aires – quando o pai do jovem argentino, então com 9 anos, lhe oferece um bandoneón em segunda mão. Este instrumento, que Astor celebrizou e cuja sonoridade ficará para sempre associado à sua história, é o ponto de partida para uma exploração musical que, no entanto, passa primeiramente pelo estudo da música clássica. A curiosidade, o gosto eclético e a audácia permitem a Piazzolla abordar transversalmente os mais diversos registos musicais e, fundindo-os, criar algo de novo e inusitado.

Em “Piazzolla – Os Anos do Tubarão”, o realizador Daniel Rosenfeld consegue uma abordagem intimista à vida de Astor Piazzola, sem descurar o estatuto de figura pública que o carisma e genialidade do biografado tornam incontornável. Projeto com mais de 10 anos e que, antes de ver a luz do dia, contou com o envolvimento de outros realizadores, “Os Anos do Tubarão” apresenta dois trunfos enormes: as imagens de arquivo que Daniel Piazzolla, filho do compositor, torna públicas pela primeira vez; e o áudio, igualmente inédito, de gravações em fita magnética, das entrevistas de Piazzolla à sua filha Diana.

A música, obviamente, é o fio condutor e a tónica maior deste documentário, cuja estreia mundial durante o IDFA (International Documentary FilmFestival of Amsterdam), num Teatro Real Carré repleto e engalanado, em Amesterdão, pôde, afortunadamente, contar com a atuação ao vivo de um trio de músicos liderado pelo bandoneonista Carel Kraaeynhof. A introdução ideal para um filme que é percorrido pelas inconfundíveis melodias e dissonâncias da música de Piazzolla.

“Se não puder caçar tubarões, não poderei tocar bandoneón. E se não puder tocar bandoneón, não poderei caçar tubarões. Para ambas as coisas, preciso de uma força impressionante.” Estas palavras de Astor e a surpreendente fisicalidade do seu posicionamento face à música são o mote do documentário que o HÁDOC – Cinema Documental em Leiria apresenta na abertura da sua 8.ª edição.

 

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