ENTREVISTA AOS REALIZADORES MORTEN TRAAVIK E UĢIS OLTE

 

“Quando todos sentimos o poder”

Uma conversa com os realizadores Morten Traavik e Uģis Olte

por Gustav Terzens

 
 

“Paradoxo”, penso eu, é o segundo nome deste filme.
Ambos: Bem… sim e não.

O que significa, no contexto deste filme, absorver estes paradoxos? Este processo de adaptação mútua revelou algo de novo, algumas qualidades vossas, os ocidentais, e algumas dos norte-coreanos. Podem referir algumas delas?
Morten Traavik (MT): Apesar de ter sido muito intensa para mim, a semana que o filme documenta é apenas a ponta do icebergue. Os concertos dos Laibach na Coreia do Norte estiveram em preparação durante um ano antes de irmos realmente para lá. Realizar tudo, maioritariamente desde a Europa, comunicar com as pessoas em Pyongyang, conseguir gerir tudo… inclusivamente, a imensa solicitação dos media através de todas as entrevistas, tentar mantermo-nos consistentes e responder a todos os diferentes media mundiais… mesmo assim, penso que essa semana foi, provavelmente, o ponto da minha vida adulta até agora onde tudo o que tinha aprendido até então foi posto à prova. Não apenas como realizador, mas como ser humano. Quero dizer, em todos os níveis havia algo a acontecer a toda a hora que precisava da minha resposta. Demorei alguns meses a “descomprimir”, posteriormente, porque foi um período de trabalho extremamente intenso, mas havia também muito que poderia correr mal (e quase correu, por várias vezes). Como disse à minha esposa quando regressei: vais ter de me encarar como um veterano de guerra durante algum tempo, vou precisar de algum tempo para me reintegrar na sociedade civil normal…

Uģis Olte (UO): Bem, tive duas grandes lições de vida durante estas filmagens. A primeira foi que devo realmente verificar de onde obtenho a informação e quais são as fontes da nossa perceção. Fui à Coreia do Norte sabendo apenas o que as notícias me diziam sobre generais que são executados por artilharia antiaérea e agricultores que são mortos por não tratarem o Líder da forma certa. Soa quase como um mito grego. Não estou realmente certo de que nós, ocidentais, não vivamos num espaço de propaganda da mesma magnitude da dos norte-coreanos… claro que a sociedade deles é completamente diferente, tem uma abordagem completamente diferente à forma como as coisas têm de ser organizadas, mas… como em tudo, é necessário ter um espírito crítico. Não devo confiar demasiado na forma como a informação é apresentada nos media ocidentais também. E aprendi uma segunda lição… estava absolutamente certo da forma como os regimes ditatoriais ou totalitários funcionam, em que existe um líder ou elite e depois uma sociedade oprimida, o que era provavelmente verdade na União Soviética, porque estava demasiado aberta a interferências externas. As pessoas sabiam coisas, por isso ficaram adulteradas, mas na Coreia do Norte senti que aquelas pessoas são verdadeiramente puras. Não foram adulteradas por nada externo.

Não estou realmente certo de que nós, ocidentais,
não vivamos num espaço de propaganda
da mesma magnitude da dos norte-coreanos…Uģis Olte

Como pelo Pokemon, pornografia, etc.?
UO: Como… pela liberdade de escolha. Porque não têm muito por onde escolher. Crescem num sistema e são parte desse sistema, não existe um ditador e uma massa oprimida, toda esta coisa é o sistema.

Juntos como um só.
UO: As pessoas são o sistema e a única possibilidade para alguém romper com este sistema é aprender algo que os inspire a fazê-lo.

Isso leva-me a um outro nível de entendimento deste filme, porque usam a cultura popular, usam o rock para comunicar com o regime deste país. Como um instrumento. Como funciona o rock para comunicar com a Coreia do Norte?
MT: Não creio que pudesse haver nenhuma outra banda para além dos Laibach que pudesse realmente fazer isso… que pudesse ser rock and roll e, ao mesmo tempo, familiar no seu estilo musical para a Coreia do Norte. Esta foi, claro, a principal razão pela qual escolhi os Laibach: o facto de serem algo completamente diferente de tudo o que os norte-coreanos tinham alguma vez visto… inclusivamente, no que respeita à sua imagem, à sua história e iconografia, já para não falar da música, que tem elementos familiares como tambores militares e arranjos pomposos. Finalmente, e não menos importante, as letras. Se olharmos para as suas versões de “Life is Life” ou “One Vision”, poderiam bem ser citações do programa do Partido dos Trabalhadores da Coreia: ”When we all feel the power, we all give the best” (“quando todos sentimos o poder, todos damos o melhor”); “One heart, one soul, just one solution” (“um coração, uma alma, apenas uma solução”)… é o mesmo tipo de palavreado.

A mesma frequência, certo?
MT: Sim. A beleza da coisa é os Laibach serem tão inesperados como primeira banda ocidental a tocar na Coreia do Norte mas, ao mesmo tempo, isso ser bastante lógico. Isto é também um paradoxo… estou muito orgulhoso de introduzir este fenómeno num sistema que não simpatiza muito com paradoxos.

Contudo, na próxima fase do vosso processo de trabalho, de regresso a casa e a transformar todas estas filmagens espantosas num filme com início e fim, os egos dos realizadores começaram a aparecer de novo?
UO: Sim, tivemos algumas discussões em que ninguém ganhou nem perdeu, mas, passado algum tempo, inventámos uma espécie de regime para nós próprios. Decidimos que iríamos fazer este filme num contexto de banda de rock. Isto significa três homens – nós dois e o editor Gatis – na mesma sala, a equilibrar os nossos impulsos.

Como músicos a improvisar.
UO: Sim, como improvisar… e ninguém pode ser demasiado autoritário em relação às suas próprias ideias. Por isso, o que aconteceu é que houve imediatamente uma estranha mistura de ditadura e democracia. Se os outros dois não concordassem com uma ideia, então esta não era aceite.
MT: Mas penso que realmente nos aproximámos. Podemos até dizer que somos como em “Brokeback Mountain” agora, em que eu sou o Jack Twist para o seu Ennis Del Mar (ri). Por isso, foi mesmo um processo no nosso papel de submeter os nossos egos pela causa comum – tal como heroicos trabalhadores modelo!

Também não é fácil o entendimento com estrelas rock.
Ambos: Tens toda a razão.

A beleza da coisa é os Laibach serem tão inesperados
como primeira banda ocidental a tocar na Coreia do Norte
mas, ao mesmo tempo, isso ser bastante lógico.
Isto é também um paradoxo…
estou muito orgulhoso de introduzir este fenómeno
num sistema que não simpatiza muito com paradoxos.Morten Traavik

Então como é fazer um filme em que os Laibach estão no “lugar do pendura”, por assim dizer? Eles não são os condutores, são vocês.
MT: Provavelmente vamos irritar um pouco os fãs mais hardcore dos Laibach por isso.

Sim. Eles transmitem este espectro, este prisma, a forma de olhar para este assunto… mas ainda assim acho que eles surgem como diferentes da imagem clássica de uma banda rock… os grandes egos, o domínio do palco…
MT: Esta é uma das principais razões porque acho os Laibach tão interessantes. Não se trata apenas da música, sempre foram muito, muito mais do que apenas música. São, na realidade, mais uma espécie de coletivo ativista cultural, poderia dizer-se. Não creio que muitas outras bandas pudessem ter entendido tão instintivamente quanto os Laibach que o filme teria de ser assim… porque não é como um filme de uma digressão ou de um concerto… está muito longe de qualquer tipo de filme de promoção que pudesse ter sido produzido pela própria banda. Não é como os Rammstein nos Estados Unidos, ou qualquer outro tipo de produto de merchandising. Mas também podemos dizer que mesmo as partes do filme que não são sobre os Laibach, são sobre os Laibach. Acho que isso é o verdadeiro totalitarismo, ou talvez totalismo em ação ali mesmo!

A verdade. Verdade é uma palavra difícil aqui, porque podes expor-te a vários tipos de crítica – artística, moral e ideológica.
UO: Claro. Há muita dinamite neste filme, mas não temos de chegar a um consenso com toda a gente, não temos de concordar com nada que o filme retrata. Como eu disse, estive lá, é aquilo que eu vi, e posso garantir que nada foi manipulado… se tiveres mais experiência e capacidade de empatia, e conseguires imaginar aquela realidade melhor do que eu, então és livre para criticar.
Acho que o único verdadeiro crime que um realizador pode fazer ao criar um filme destes é manipular a realidade, fazê-la parecer diferente do que é na verdade. Penso que o único “crime” que talvez tenhamos cometido é a abordagem brincalhona, não levámos estas filmagens nem os acontecimentos retratados no filme demasiado a sério.

Morten, vens de um país rico, liberal democrata, e estás a fazer um filme com uma equipa que passou um terço das suas vidas sob um regime comunista…
MT: Mas vivo na Suécia agora, é bastante opressivo! (risos)
É como uma União Soviética feita por gays. Estás à vontade para citar, estou mesmo a falar a sério.

(Ri) Então, especificamente, lésbica não. Gay.
MT: Sim, na verdade, gay, porque uma União Soviética lésbica seria ainda mais opressiva do que uma gay.

Numa palavra, qual é a missão deste filme?
UO: Penso que é libertar. O nome do filme é “Dia da Libertação”… bem, é o nome de um dia importante, obviamente, mas também pode descrever algum tempo de reação que o espectador – quer seja ocidental ou norte-coreano – possa ter face à sua perspetiva do mundo, talvez ele próprio seja também um pouco libertado.

Libertado da sua mentalidade? De como perceciona...
UO: Talvez apenas livre para colocar algumas questões… porque é que a minha mentalidade é como é? “Estarei 100% convencido de que sei como são as coisas?”

Morten?
MT: Iluminação para o povo, nos dois sentidos. E um bom espetáculo!

Morten Traavik é um realizador e artista norueguês que trabalha num largo espectro de géneros artísticos e fronteiras internacionais.

Treinado como encenador na Rússia e Suécia, a noção do mundo como palco e a identidade como guião nunca se ausentam do seu trabalho, bem como uma característica distinção enevoada entre arte, ativismo e questões sociais.

Os seus concursos de beleza para sobreviventes de minas, Miss Mina Terrestre Angola (2008) e Miss Mina Terrestre Cambodja (2009) fizeram manchetes e alimentaram discussões pelo mundo fora.

É também reconhecido por uma série de controversas colaborações com artistas  e entidades culturais norte-coreanos, bem como por ser um adido autorizado para as questões culturais daquele país.

Uģis Olte é um realizador e editor Letão que gosta de se manter divertido enquanto lida com assuntos sérios.

Equipado com a sensibilidade de um músico e a crença que os mitos e os contos de fadas podem ser ferramentas úteis para contrar qualquer história contemporânea, criou diversos formatos televisivos originais, vídeos de música e publicidade além de 3 curtas de ficção – The Red Spot, KK2678 e King of The Wild Things. As suas acometidas no género documental resultaram em dois filmes – Stuck in Stikine (2007) e Double Aliens (2015).

 

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