28 maio 2019

MAIS UM DIA DE VIDA

de Raúl de La Fuente e Damian Nenow

Another Day of Life | 85’ | Polónia, Espanha, Alemanha, Bélgica | 2018 | m/12

“Mais Um Dia de Vida”, adaptação do romance homónimo de Ryszard Kapuściński, é o empolgante relato dos três meses de viagem do repórter polaco através de uma Angola devastada pela guerra em que as linhas da frente se alteram de dia para dia, como num caleidoscópio.

Tal como na obra literária que lhe deu origem, o filme começa com a chegada de Kapuściński a Luanda, em 1975. O país está imerso no processo de descolonização, após o sucesso da Revolução dos Cravos, com os portugueses a fugirem apressadamente das zonas de maior encanto da cidade, apavorados com a possibilidade de um ataque total à capital. As lojas estão a fechar, o lixo amontoa-se nas ruas, enquanto as autoridades desaparecem gradualmente. Kapuściński acompanha a desertificação de Luanda, enviando comunicações diárias para a Agência de Imprensa Polaca.

Nos meses que antecederam a declaração de independência, diferentes fações do movimento de libertação angolano envolveram-se numa luta aguerrida, sabendo que quem vencesse deteria o poder na futura república independente. Após alguma reflexão, Kapuściński decide viajar para as linhas da frente, sabendo estar a arriscar a vida para ser o primeiro jornalista do mundo a divulgar relatórios diários sobre o curso do conflito. Viajar através da zona de conflito assemelha-se a um jogo de roleta russa: uma simples saudação errada num posto de controlo pode significar a morte.

A Guerra Civil Angolana deixa rapidamente de ser apenas mais uma guerra que Kapuściński cobre como repórter. Surge um conflito interno dentro do escritor, que é incapaz de e não está disposto a ser simplesmente um observador passivo e objetivo dos eventos que o rodeiam. Sente compaixão e simpatia e tem um enorme respeito pelas pessoas cujas histórias quer contar ao mundo. A situação leva-o a questionar o papel do repórter de guerra, a questionar os limites da imparcialidade jornalística e o envolvimento no conflito. Para contar a verdadeira história de Angola, Kapuściński passa por uma mudança profunda como ser humano e renasce – como escritor.